CoronaCity: desafios para a saúde urbana

Autores: Sergio Myssior e Thiago Metzker*

Edição 123 Revista Ecológico - Publicado em: 24/03/2020

O século XXI consolida as megalópoles e uma forma de vida predominantemente urbana. Diversos desafios contemporâneos suscitam reflexões cotidianas sobre a saúde urbana: mudanças climáticas, enchentes e inundações, secas prolongadas, lixo, surtos de dengue, poluição atmosférica, trânsito, estresse e, agora, o COVID-19.

Confinados em casa, trabalhando na modalidade de home office, medida relevante para achatar a curva de contaminação, refletimos agora sobre a cidade que temos e aquela que queremos.

Atônitos pela crise global imposta pelo coronavírus, somos bombardeados com orientações relativas às medidas básicas de higiene, que precisam alcançar quase 210 milhões de brasileiros.

Em um país com mais de 100 milhões de pessoas sem coleta de esgotos e cerca de 35 milhões sem acesso à água potável, a temática do saneamento básico ganha maior relevância nesse contexto. Somam-se ainda mais de 6 milhões de famílias sem moradia, além de 11,4 milhões de brasileiros morando em favelas, segundo o Censo 2010.

Mesmo em áreas com infraestrutura consolidada, novos e reluzentes edifícios são erguidos com fachadas de vidros importados, completamente dependentes de sistemas de refrigeração central, sem possibilidade de ventilação e iluminação naturais.

As ruas, praças e parques se renderam à sedução dos centros de compras e entretenimento, completamente impermeáveis ao entorno. A natureza, os rios e a paisagem foram rapidamente substituídos por concreto, asfalto e poluição, até pouco tempo sinônimos de progresso e desenvolvimento.

Dois cenários

Conforme as análises, em artigo publicado em 17/03/2020 na revista Nature Medicine, o COVID-19 definitivamente não é oriundo de laboratório ou propositadamente manipulado. Eliminada essa possibilidade, o artigo apresenta dois cenários para explicar a origem do vírus: evolução por seleção natural no ambiente selvagem ou evolução por seleção natural em humanos, após a transferência do vírus por algum animal. Suspeitam do morcego ou do pangolim, que são usados na alimentação dos chineses. Conclusão clara: o modo como temos lidado com o meio ambiente traz riscos ainda inimagináveis para a humanidade.

O cientista britânico James Lovelock, com quase 100 anos de idade, postula há tempos a “Hipótese Gaia”, da Terra Viva, uma espécie de organismo biológico capaz de se reequilibrar em benefício da manutenção da vida (não necessariamente da vida humana).

Em uma livre e criativa interpretação dessa hipótese, poderíamos supor que o COVID-19 seria uma espécie de reação imunológica da Terra a um patógeno (sim, nós humanos). Gaia está nos alertando. Ou evoluímos em uma relação de simbiose mutualmente vantajosa ou teremos de eliminar esse patógeno.

Por outro lado, essa crise tem despertado um espírito coletivo, comunitário e colaborativo sem precedentes. E isso nos parece alentador. Admitir as carências estruturais que afetam a maior parte dos brasileiros deve ser prioridade para a garantia da saúde urbana e a reconstrução de uma sociedade mais equilibrada, inclusiva e sustentável.

Com a ascendente resiliência humana, esperamos chegar a um “novo normal” que incorpore uma abordagem coletiva e colaborativa, permitindo o desenvolvimento urbano conectado à natureza e às pessoas.

Uma sociedade, enfim, que demonstre aprendizado com os fracassos da história e que não provoque uma nova reação sistêmica de Gaia. É preciso aprender com a cidade que temos e assumir novos compromissos e responsabilidades para construir a cidade que queremos.

(*) Sergio Myssior, arquiteto e urbanista, diretor da MYR Projetos Sustentáveis e conselheiro da Revista Ecológico / Thiago Metzker, doutor em Biologia, diretor da MYR e integrante do Conselho Regional de Biologia.

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