O futuro das cidades: o que esperar após a pandemia

Fonte: Revista Ecológico - Edição 125 - Publicado em: 11/06/2020

A flexibilização e a retomada das atividades em vários países, passada a fase mais crítica da pandemia do novo coronavírus em muitas localidades, vêm descortinando uma série de possibilidades, novas práticas e adaptações nos ambientes urbanos.

Esse “novo normal”, da convivência social e modo de vida, reforçou diversas tendências apontadas em relação à qualidade de vida ligada a moradia, trabalho e mobilidade, por exemplo. Se antes falávamos das cidades do futuro, agora nos perguntamos qual será o futuro das cidades.

Em Paris, por exemplo, as ciclovias foram ampliadas para incentivar o uso de bicicletas pela população, como uma alternativa de transporte mais seguro e que ajuda a minimizar as possibilidades de nova propagação do vírus. A cidade já tinha mais de mil quilômetros de ciclovias e recebeu provisoriamente outros 50 quilômetros nas últimas semanas.

O mesmo aconteceu em Bogotá, na nossa vizinha Colômbia, com 75 quilômetros de ciclovias provisórias. Do mobiliário urbano aos bares e restaurantes, em todo o mundo vêm somando-se os exemplos de cidades que estão repensando a forma como as pessoas irão interagir nos ambientes públicos a partir de agora.

E no Brasil, quais serão os principais aprendizados e medidas aplicados após esse período? Segundo Sérgio Myssior, especialista em desenvolvimento urbano sustentável, a pandemia escancarou algumas questões relevantes como a importância do planejamento e da gestão urbana, melhor aproveitamento dos espaços urbanos e do olhar mais voltado para a regionalidade, a vizinhança e a vida em comunidade.

“Esse retorno gradual vai ajudar a fortalecer os vínculos das pessoas com as regiões onde moram, mostrando a importância do desenvolvimento de polos de vizinhança e centralidades junto aos principais centros urbanos. Elas vão buscar realizar as atividades de compras e serviços no seu entorno imediato, reforçando a dinâmica da economia local, voltando sua atenção para o micro e valorizando os pequenos produtores de forma mais natural, além dos aspectos de solidariedade e sustentabilidade”, explica Myssior, que integra o Conselho Editorial da Revista Ecológico.

Assim como vem acontecendo lá fora, a dinâmica das cidades brasileiras também deverá ser adaptada a essa nova realidade, segundo o especialista. “Estamos experimentando a ‘não cidade’, uma privação de convívio nos espaços urbanos e públicos. Com isso, percebemos como a desaceleração impacta a nossa vida. A vitalidade urbana depende das pessoas, somos nós que dinamizamos o desenvolvimento econômico, social e as inovações. Ao esvaziar as cidades, observamos com clareza o desequilíbrio na ocupação desses espaços urbanos. Grandes áreas dedicadas aos veículos motores, carros, motos, ônibus, etc. enquanto às calçadas, espaços de convivência e ciclovias restam uma porcentagem reduzida. Acredito que veremos uma aceleração na tendência de criação de espaços de convívio mais amplos para circulação e encontro das pessoas. Mais do que nunca, o ser humano quer se conectar mais com a paisagem, com a natureza, reforçando laços sociais e culturais” ressalta.

Saem na frente, nesse contexto, aqueles projetos que já nascem alinhados aos conceitos de desenvolvimento urbano mais humano, inteligente, criativo e sustentável. É o caso do Masterplan da CSul, na cidade de Nova Lima (MG), um projeto inédito no Brasil que contempla infraestrutura de habitação, lazer e empresarial, com conceitos de tecnologia, mobilidade e, principalmente, sustentabilidade.

Criado pelo escritório do renomado arquiteto e urbanista Jaime Lerner, ele está alinhado a um planejamento de longo prazo tanto do Estado, através do PDDI – Plano de Diretor de Desenvolvimento Integrado da Região Metropolitana de Belo Horizonte, como do Plano Diretor da cidade de Nova Lima, que prevê a descentralização da atividade comercial, de moradia e lazer de Belo Horizonte, criando subcentralidades na região metropolitana.

Este desenvolvimento urbano proporcionará uma área verde por habitante cerca de seis vezes maior do que a da capital do estado, devido à preservação de 60% do território em terreno natural, oferecendo corredores ecológicos, drenagem natural e acompanhando uma tendência mundial que aponta para a valorização do meio ambiente e pela busca das pessoas por qualidade de vida.

Para Maury Bastos, presidente da CSul, esse momento é de grande impacto social e as pessoas estão reavaliando alguns aspectos da vida moderna. “Acreditamos que haverá uma evolução no modo de vida após esse momento desafiador gerado pela pandemia. Muitos descobriram, por exemplo, que trabalhar em casa é viável e produtivo. Após esse período, as pessoas vão querer cada vez mais alternativas para economizar tempo em deslocamentos, morar perto de centros de serviços e entretenimento, ter amplo acesso a espaços ao ar livre. Em outras palavras, morar, trabalhar, divertir-se, tudo junto, de forma inclusiva e com respeito à natureza e aos recursos naturais. E é isso que buscamos oferecer com o desenvolvimento urbano da Centralidade Sul (CSul)”, ressalta Bastos.

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