Cidade Esponja: não lute contra a água

Cidade Esponja: não lute contra a água

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Autor: Sergio Myssior

Cidade Esponja

A gestão convencional das cidades precisa ser repensada. Com soluções baseadas na natureza e o investimento em infraestrutura verde é possível transformar o ambiente construído e melhorar a qualidade de vida nas cidades.

E se a água de chuva, a mesma que causa inundações e prejuízos, pudesse se transformar em um ativo urbano de grande valor? Esta é a ideia central da Cidade Esponja, uma nova orientação no planejamento e na gestão urbana que vem sendo introduzida em grandes cidades, especialmente na China, onde mais de 65% da população encontra-se em áreas com potencial de inundações e alagamentos.

A gestão convencional das águas das cheias envolve frequentemente a construção de grandes galerias, obras de drenagem e avenidas sanitárias. São empreendimentos que drenam grandes recursos do orçamento, mas sempre paliativos, especialmente tendo em vista os efeitos das mudanças climáticas, que indicam o aumento da intensidade e da frequência de eventos climáticos extremos. O objetivo principal dos sistemas convencionais é captar o maior volume possível das águas pluviais e transportar a água o mais rapidamente à jusante.

Mas uma Cidade Esponja faz justamente o oposto, pois busca absorver, reter, infiltrar em terreno natural e reduzir o escoamento superficial, especialmente retardando a contribuição naquele momento de pico das chuvas. E são Soluções Baseadas na Natureza (SbN), ou seja, recursos naturalísticos e relacionados à infraestrutura verde.

Mas é possível adaptar uma cidade existente para esta orientação de Cidade Esponja? Com certeza, este é o objetivo, explorar a incrível capacidade de transformação das cidades! A primeira regra é não repetir as receitas do passado e... esperar resultados diferentes.

A orientação "esponja" deve buscar o planejamento e a gestão integrada das políticas de desenvolvimento e sustentabilidade urbana, inclusive ampliando para uma abordagem regional e intermunicipal, de forma que a bacia hidrográfica seja adotada como referência territorial. Jardins de chuva, parques lineares, pisos drenantes, passeios e ruas permeáveis, telhados verdes, caixas de retenção e valas de infiltração forçada, renaturalização de cursos d´água, recuperação de APPs e uma infinidade de dispositivos de micro e macro drenagem irão constituir os elementos da cidade esponja. O recurso hídrico absorvido será fundamental para garantir a recarga do aquífero, a água armazenada poderá ser reutilizada e este elemento fundamental da nossa vida, a água, será valorizado e utilizado de maneira racional e integrada à paisagem urbana.

Os resultados podem ser avaliados sob diversos prismas. Do ponto de vista econômico, a infraestrutura verde oferece soluções menos onerosas do que as obras convencionais de macro drenagem. Além disso, com maior vida útil e eficiência. E podem integrar projetos de intervenções e requalificação urbana, operações urbanas e modelagens que desonerem o investimento público. Do ponto de vista da urbanidade, uma cidade esponja também oferece áreas generosas para o convívio, o lazer e o contato com a natureza. Pensando na mobilidade, os parques lineares e as soluções baseadas na natureza podem se integrar perfeitamente às ciclovias, ruas para pedestres e até sistemas de transporte coletivo. E a tecnologia pode ser uma importante aliada nos sistemas de monitoramento em tempo real.

Mas a cidade esponja não é uma solução mágica e instantânea. Dificilmente atenderá aos gestores que prometem soluções milagrosas ou que não estejam dispostos a "ousar" na gestão urbana.

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